A noite não é uma criança, mas sim uma dimensão. É um portal que se abre com o sono e se fecha com o acordar. É um plano vizinho e cheio de breu da qual tenho liberdade para sonhar com o que quero. Ainda assim, no escuro da madrugada, sei que não estou só. Todas as noites, a lua ilumina a minha cama. Ela rebate a luz emitida pelo sol, que nunca termina. É como as ondas, o mar... Inesgotável! O céu é infinito, mas só podemos vê-lo com a luz. E todo o dia ela está lá, focando a minha cama.
Iluminado, angelicalmente mirado pelos anjos da noite, inapelavelmente flechado pelo cupido, que ao me acertar saiu sorrindo e dando-me as costas inenarráveis asas brilhantes, eu adormeço. Um semblante paira à janela e eu não o posso ver. Já de olhos fechados, sinto a movimentação por instinto. Uma plumagem divina pousa por sobre o meu cobertor, mas não são anjos. Sinto o cheiro de céu, de vácuo e imensidão, e cada vez mais tenho certeza de que eu estava ultrapassando o portal, visitando a dimensão vizinha. Lá eu posso ser o que eu quiser, e posso sonhar sem estar acordado. Lá eu posso finalmente sonhar sozinho!
Ao ultrapassar a barreira fiel, entre este mundo e o próximo, fui guiado pelos anjos até a entrada, e entrei. A passos não muito largos mas bastante cansados, eu fui me arrastando, como um gárgula sucumbindo de baixo da terra. Até eu embarcar no próximo mundo, no corredor iluminado, cintilavam figuras humanas e aladas, e aí é que eu comecei a desconfiar. Só podia ser o céu! Antes de cada passagem para o outro mundo, devemos ir para o céu para comprovarmos que somos almas boas e gratas. É como o fim da vida, mas sem o ingresso à
dimensão sagrada. Podemos transitar por qualquer dimensão que quisermos, e isso, após eu descobrir e constatar, foi fantástico. Eu finalmente pude ter a chance de encontrar todas as respostas do mundo, me espelhando em outro! Foi incrível, eu nunca mais fora o mesmo.
Ainda com meu corpo deitado à cama iluminada, eu seguia carregando a minha alma pelo universo. Num percurso eterno, eu busquei o horizonte. Na estrada da vida, procurei o final. Numa longa caminhada, não encontrei.
- Quantas milhas para a eternidade? - Perguntei eu.
- Ela está bem aqui! – Deus me disse.
Assustado, não me continham pensamentos na mente, e eu, inenarravelmente possuído pelas forças divinas, exacerbadamente influenciado pela bondade em pessoa, acordei. E toda a louca jornada foi por água a baixo. Como é bom ser marujo!

