domingo, 18 de março de 2012

atrasado

atrasado
como a folha caindo de um penhasco

mais lerdo que os demais

fisicamente impróprio
para girar na velocidade do próprio mundo

desajustado com o sistema
pelo sistema
e para o sistema

incapaz de manipular o guidão
de controlar a escotilha

atrasado
por uma dialética do espaço-tempo

em referência ao sentimento
liberto pelas cordas que oprimem



atrasado
como um leitor que não escreve

sem ritmo e nem constância
nem vibrante e sem variância

atrasado
como o coelho em relação à tartaruga
como o conservador anti tecnologia
como o criador sem novas idéias

atrasado
como se nada mais houvesse no mundo
que o próprio tempo

intrínseco à existência
preso à necessidade de viver sozinho


Medroso (e de medo vive o homem)
como se estivesse atrasado

Valente como uma espada que cai e não rompe
e esquecido na qualidade de atrasado

e atrasado em forma de retardatalho
e retardatalho no sentido de sozinho
e sozinho em forma de absoluto.

cadillac

que vontade de pegar a bicicleta
e andar sem rumo

encontrar paisagens
onde há prédios e más construções

estar por um momento perdido
em busca do vazio e do inconcreto

viajar ao lado do improvável
na longa estrada de areia

desbravar
o destino

quantificar
o infinito

personificar a liberdade!

Alaga

tudo
o que você fez
o que aconteceu
o que foi que eu fiz?

nada
e quanto mais nada
mais fica no lugar
à inércia da onda
caminha
por entre as belas árvores
sem perceber o chão
sem perder o chão
sem existir chão

não basta a chuva
pra alagar a rua
mas um pingo d'água
para transbordar o coração